quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dois dias na Ilha da Fantasia

Quem acha que só o Rio de Janeiro tem o seu Projac, engana-se. Na Bahia, a cidade cenográfica fica a uns 70 quilômetros de Salvador e chama-se Praia do Forte. O pano de fundo das várias novelinhas que passam por ali é a ecologia. Tudo na vila foi pensado para a não agressão ao meio ambiente. E parece que dá certo: são centenas de turistas de um lado para o outro gastando nas lojas e restaurantes de grife, levando sustento para a população local, que me pareceu megafeliz.

Depois de dois dias na ilha da fantasia, adentrei por Camaçari rumo à cidade de Cachoeira. Todos os baianos desaconselham pegar a estrada que cruza o polo industrial. São inúmeras rotatórias que deixam o motorista quase enjoado de tanta voltinha. O mais chocante é ver um sem número de fábricas multinacionais jogando resíduos tóxicos a menos de 25 quilômetros do paraíso ecológico que é a Praia do Forte.

Cenário forte, quase de filme de ficção científica com umas torres imensas e de diversos formatos. Ficamos tão impressionados que nem conseguimos parar o carro e tirar a foto que deveria ilustrar o post. Algumas empresas ali instaladas informam sobre o tipo de poluição que está sendo produzido. Em uma das placas, ao lado de um rio, se lê, na maior cara-de-pau: ‘proibido nadar, beber e pescar. Água industrial.’

Me senti enganada depois de um par de dias contemplando as tartaruguinhas.    

sábado, 25 de setembro de 2010

Por que a comida sumiu das campanhas eleitorais?


A comida tinha papel fundamental nas campanhas políticas. Era batata ver o candidato fazendo graça com os possíveis eleitores comendo um churrasquinho de gato, um pastelão de feira, uma bela feijoada ou até a famosa – e não menos nojenta - buchada de bode.   

A máxima dos marqueteiros passou a faca nas refeições públicas de políticos postulantes a novos cargos com a intenção de evitar imagens patéticas dos caras de boca cheia.  Ou até – possibilidade mais absurda – pra eles não assumirem o cargo com barrigão.

Imagens mais limpas e, resultado, o cafezinho em alta. Tradição das campanhas mineiras, a bebida ganhou destaque nacional e é onipresente em todos os estados. Além de evitar o risco de uma foto esdrúxula, mantém o mínimo da identidade cultural brasileira. E nem assim os políticos estão livres de situações embaraçosas. Este ano, o cafezinho foi capaz de causar alvoroço nas campanhas dos presidenciáveis.  

Nada que divertisse. É pena, então, que o cardápio do brasileiro não entre mais na pauta eleitoral e que nós, eleitores, sejamos furtados no direito de saber o que come, quando e de que forma os futuros chefes da nação. Afinal, não há quem duvide que a comida está diretamente ligada à identidade social do cidadão.      

Será que a Dilma em suas novas medidas evita o torresminho mineiro e o churrasco gaúcho, pratos tradicionais de suas duas terras do coração? Outras dúvidas que não me saem da cabeça. Será que o Serra, cada vez mais parecido com o Dráuzio Varela, evita as gorduras trans e a carne vermelha, e ainda sofre muito com sua úlcera, que o fazia levar marmitas para as agendas externas (o que já o livrava dos quitutes mais ousados)? Não saberei. O máximo a que chegaremos, caso algum curioso nos conte, é se há espaço para o leite pingado nessa enxurrada de café escuro.    

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os 2113 transes de uma seita em movimento

Há uma seita que segue silenciosa no Rio de Janeiro. Atraídos pela necessidade de alcançar um rumo na vida, todos passam pela experiência do transe. E mesmo que não gostem, acabam voltando, já que o caminho, apesar de tortuoso, leva a um objetivo comum. Entre os iniciados, é impossível não manter a cumplicidade: os contatos passam a ser constantes e a necessidade de informações sobre os companheiros é real, pois os percalços na longa jornada são muito comuns.


Assim como uma igreja evangélica, o dízimo é exigido. São R$ 4,70. Apesar do valor não fazer distinção de classes sociais, a viagem não é igual para todos e pode começar em diversos pontos, de acordo com a evolução cármica de cada indivíduo. Além da duração, a forma como cada pessoa enfrenta as provações difere. Mas todos, absolutamente todos, são unânimes: para alcançar o objetivo, há que ter sofrimento.

Depois que passam a fazer parte desta congregação – e mesmo sabendo que há outras formas, menos sofridas, de encontrar a luz -, os integrantes se pegam arregimentando novos integrantes. “Cruza as três pistas da Enseada de Botafogo. Lá você consegue.”

Neste cenário idílico do Rio de Janeiro, a oferta é farta. São três portas. Mas nem todos são aceitos numa primeira tentativa. Há que ter perseverança e se mostrar realmente decidido a ingressar. Após ser aceito, o novo integrante conforma-se e, como em todo processo interior, entremeia momentos fáceis e difíceis, com a certeza de que vai atingir a sua meta. Com atraso, mas vai.

Após a adesão, há quem tire proveito para reclusão na leitura, na música ou mesmo na fotografia. O ponto alto do transe é o encontro com Iemanjá. Mas não se engane: não se trata de candomblé. Só quem experimenta, entende.

• Para integrar temporariamente uma equipe de trabalho no Polo de Cine e Vídeo, ao lado do autódromo em Jacarepaguá, Marcelle Justo teve que pegar por 60 dias consecutivos a linha de ônibus 2113, no primeiro ponto da praia de Botafogo. Neste tempo, colecionou decepções, como ver o ônibus passar pela pista de fora e não a pegar; brigas entre os passageiros e o motorista e até motoristas que não sabiam o trajeto da linha, tendo que contar com o suporte de passageiros para chegar ao final.

• Um colega da mesma equipe presenciou o assalto de uma nota de 10 reais e, na mesma viagem, foi obrigado a saltar do ônibus porque o motorista se envolveu em um engavetamento.

• Outro colega, depois de uma coleção de minutos esquecido no ponto, teve que aceitar a carona de um ônibus qualquer que seguia apagado para a garagem e não permanecer definitivamente esquecido na avenida Abelardo Bueno.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma sucessão de erros e a riqueza ao final

Mês passado, eu e Alexandre fomos para Buenos Aires curtir quatro dias de folga. A intenção dele era conhecer Montevidéu, mas por força de Mafalda maior consegui convencê-lo a voltar à capital argentina. Afinal, foi ano passado que ela ganhou seu banquinho na esquina das calles Chile e Defensa, em San Telmo, e eu ainda não a conhecia. Óbvio não era só: havia ainda muito a conhecer na cidade, já que da última vez, em lua-de-mel, estávamos meio tontos por conta de toda a produção do evento e perdemos muitos pontos bacanas.

A condição, imposta por M’Arrudão, para rumar pela segunda vez para a cidade dos portenhos era fazer ao menos um passeio ao Uruguai. Não encrenquei e topei de peito aberto conhecer Colonia del Sacramento. Erro número um!

Os guias de turismo dizem que trata-se de uma cidade histórica, classificada como patrimônio da humanidade pela Unesco, cheia de belas construções. A graça maior é que a cidade foi fundada por portugueses, que revezaram o poder naqueles terras com os espanhóis por anos seguidos. Ou seja, haveria uma mescla entre as duas culturas nítida nas construções.

Em uma hora de barco, dá pra fazer a travessia pelo Rio da Prata entre BAires e Colonia (é assim que os portenhos chamam a cidade). Tentamos fazer as reservas pela internet. Não chegamos a nenhuma conclusão e decidimos fazer in loco. Erro número dois. Pedimos que as meninas da recepção do hostel fizessem pra gente. E elas pegaram uma daquelas excursões caretas com city tour, almoço incluído e horários esdrúxulos. Beleza, é passeio, não castigo.

Ledo engano. Ao chegar em Colonia, a guia mais bizarra da minha vida aguardava um grupo heterogêneo, para fazer o ‘walking tour’ pelo centro histórico. Aos berros, de cara amarrada e ordens bem autoritárias, a moça nos explicava que Colonia, na verdade, tem poucas construções históricas de séculos passados. Parte da cidade, incluindo o centro histórico, foi reconstruída por profissionais depois de um esforço do governo para dar um incentivo à região, tanto turístico quanto econômico. Caído, pensei.

Ao encontrar um casal brasileiro de Campinas, puxei papo, rimos alto e a nazista travestida de guia mandou calar a boca. Hora de partir. Não dava, no voucher do passeio, com direito a almoço e ‘walking tour’, não tinha o endereço do restaurante. Tínhamos que aguardar o momento de perguntar esse detalhe para a senhora. Quem disse que ela abria espaço para a singela pergunta?

Em cada esquina refeita por historiadores, uma plaquinha indicava a agência da nazista-guia como única opção de city tour com preços convidativos. Um vexame... A cidade, que de fato é bonitinha, toda emporcalhada por plaquetas publicitárias caça-turista. Depois de uma hora e meia de tortura, como uma professora má de filme da Sessão da Tarde, ela nos disse que poderíamos almoçar em dois locais. Escolhemos o mais simpático. Erro número três. Os caras desistiram de aceitar o voucher. Fomos para o outro: uma lanchonete de quinta, onde a melhor opção eram sanduíches de salsinha ou hambúrguer. Pelo menos o vinho era bom.

Resumindo: a primeira vez no Uruguai foi uma decepção. Mas vale a pena. Tive meu momento de maior riqueza dos últimos tempos, já que a moeda de lá vale um décimo de real. Pra aproveitar, comi até cascata de camarão no jantar e comprei o sobretudo mais barato da minha vida. Ai, ai, meu coração bate agora por Montevidéu. E Mafalda que não me ouça, Alexandre tem toda razão.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Os belgas sabem muito bem o que fazem


Sensacional o roteiro da cerveja em Bruxelas, publicado quinta-feira na revista Boa Viagem. Só me trouxe boas lembranças do dia em que passei na cidade. E foi basicamente aquilo, de bar em bar, atrás de novidades à base de cevada. E nem era minha intenção.

O problema – ou a solução – foi uma dica do Alexandre: na principal praça, bem no Centro, é possível entrar em alguns prédios históricos para uma visita. Daí, o acaso me colocou no mau caminho. A primeira porta aberta que vi tratava-se do ‘Museu da Cerveja’. Entrei, paguei, vi e não gostei. Programa tosco pra enganar turista, pensei. Mal sabia que uma bela taça da deliciosa bebida me aguardava como brinde ao final. Pronto, começou a perdição. Cerveja belga é invenção só mesmo comparada a dos irmãos Lumière.

Como estava sozinha e tinha passagem comprada para o último ônibus que sairia da capital belga para Paris, onde tinha garantida caminha quente na Maison de Norvège, devia segurar a onda. É impossível! São tantas opções, tantas chopeiras, cores e sabores que nenhum admirador – por mais low profile que seja – consegue sair incólume. Fiz então um percurso moderado, experimentando um copo em cada parada. Um sonho!

Além disso, os belgas são uma espécie de franceses travestidos de carinho, boas histórias, generosidade e muito acolhedores. Adorei. Sem contar que os preços em Bruxelas são infinitamente mais baixos que em Paris. E essa foi aquela viagem em que eu me virei vendendo chaveiros by Dona Eliana, tal qual vendedora da Avon.

Cheguei com folga para pegar o ônibus de volta à Cité Universitaire, na capital francesa. A solução – ou a perdição - foi provar mais um na estação e fechar com chave de ouro minha primeira incursão pelo país do Tintim. No dia seguinte, liguei para o Rio, para dar satisfações ao marido – abandonado sozinho em casa. Ele me perguntava: “Gostou da Bélgica?” Só consegui dizer: as cervejas são sensacionais. Você precisa conhecer.

Peninha, ainda não rolou. Mas volta e meia temos uma amostra daquela tarde inesquecível. Semana passada, vivemos uma noite de cervejas quase tão boas quanto, num bar que enche os olhos logo de cara com tamanha gama de opções dispostas em vitrines-geladeira. Mas esta já é uma outra história.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Papo de botequim

Inspirada no Comida di Boteco, que começou na sexta e vai nos alegrar – graças a dadá! – até o fim de junho, me lembrei de uma situação inusitada vivida no Pavão Azul, na Paula Freitas, em Copacabana.

Logo ao sair do apartamento da Ladeira dos Tabajaras, me toquei de que tinha esquecido a escada com três andares, muito útil na nova casa. Voltando do trabalho, peguei a sogra e o marido pelo braço e pedi ajuda: ‘vamos buscar’. Saindo dali, a pé (só pra variar), demos a parada estratégica no Pavão para apresentar a patanisca para Sueli. Fato recorrente no Pavão – boteco concorridíssimo no bairro – não tinha mesa. Não nos fizemos de rogados: abrimos a escada e espalhamos copos e os peticos, pelos andares do utensílio doméstico, para a degustação na calçada.

Nossa ideia foi aprovada por ninguém menos que o dublê de chef e ator Rodolfo Bottino que, sortudo, estava sentado na mesa em frente. Fazendo graça, prometeu espalhar a novidade e disseminar nossa prática nos botequins do Rio. Bem que poderia haver um modelo mais compacto – tipo bicicleta dobrável – pra que a gente pudesse desfrutar melhor de alguns pontos com boa cerveja e petiscos engordativos e deliciosos (se não engordassem, não seriam bons, claro!), como o Braseiro da Gávea, o Bracarense em fins de semana e o filhote (sic!) Chico e Alaíde, sempre abarrotados.

Aliás, história boa de boteco é o que não falta. Encostado no balcão de um desses exemplares no Leme, Alexandre viu Rogéria de bobs no cabelo, pedindo ao portuga do caixa pra trocar uma nota de 50 reais. Coçou os olhos, demorou a acreditar, mas não teve dúvidas segundos depois. Era ela!

Serafim também já nos deu o que falar. Sábado desses, acompanhados da Rô e do Aluísio, conhecemos o barbeiro mais famoso da Rua Alice. Aos berros, o sujeito gritava com um bebum ao pedir respeito à memória de Seu Juca, morto ano passado. A forma escolhida pelo fortão era tão desastrada que mais parecia que estávamos assistindo a um assalto. Apavorados, chamamos os garçons que nos acalmavam dizendo ‘ele é uma flor’. ‘Credo, que flor é essa, pensávamos’, acuados, sem coragem de levantar a mesa e também ganhar um sopapo. Ficamos até o último gole.

Semanas depois, Aluísio aparece de cabelos cortados, contando satisfeito:

- Vim ao barbeiro vizinho de vocês.

Mais uma vez apavorados, eu e Alexandre dissemos: ‘Tá doido? Era aquele cara violento!’. Como quem não entendeu nada, nosso padrinho perguntou: ‘aquele qual?’. Não lembrava, óbvio, a cerveja apagou a má lembrança e ele teve que concordar com o staff do Serafa: o barbeiro da Rua Alice é mesmo uma flor.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bodas de açúcar


Daqui a 15 dias, eu e M’Arrudão completamos quatro anos do casamento civil. De fato, já estamos juntos há seis e é o que a gente conta para o público. Um dos motivos é que nesses dois anos antes da festa junina, com direito a um juiz de verdade, vivemos em Barcelona uma experiência deliciosa.

Juntos, adentramos o Palau de la Musica Catalana e assistimos ao último show de Ibrahim Ferrer. O cubano, famoso por conta do Buena Vista Social Clube, já estava muito debilitado, o que não impediu nosso deleite naquele lugar lindo ao som de uns boleros sensacionais. Acho que o espetáculo mais sublime da minha vida.


Foi também nessa temporada que conhecemos a cidade de Sant Sadurní D’Anoia, capital da cava, o espumante espanhol (foto acima). Mal informados, chegamos tarde e não conseguimos fazer as visitas tradicionais. O jeito foi percorrer a pé caminhos alternativos e roubar muita uva das plantações. Na volta, encontramos uma cave aberta, onde a degustação da bebida é feita em torno da churrasqueira comunitária. Nunca tínhamos visto esta combinação: champanhe e churrasco, e, óbvio, não tínhamos os insumos pro almoço. Vendo que éramos gringos, o moço deixou a gente comprar duas garrafas, sem termos levado a carne (que não era vendida no local).

A pé também chegamos ao castelo da Gala, mulher de Dalí, na pequena Púbol. Mais uma vez, por falta de comércio aberto no domingo na pequena cidade de pedra, tivemos que nos virar com frutas colhidas das árvores, no bosque lindo que liga o castelo e a estação.

Aliás, o dia de passeio era ‘o domingo’. Num deles, M’Arrudão cismou – mesmo com a minha recusa - em ver uma tourada. Por um bom tempo, o dinheiro que tínhamos era para UM passeio por semana. E este montante se foi nas entradas. Ao ver o primeiro touro espetado, ele me disse: ‘vamos embora’. Ainda se acostumando ao meu jeito, M’Arrudão teve que ouvir o ‘tá maluco?!’. Ficamos até a metade do 'espetáculo', já que não teríamos dinheiro para outra incursão. Mas deu tempo dele vibrar com a revanche do touro sobre o toureiro. E ser o único a comemorar na arena.



Outro grande momento foi a minha descoberta de que a vida de acampamento é um barato! De mochilão nas costas, percorremos a Costa Brava, conhecendo balneários singulares, como Tossa de Mar e Cadaqués (foto acima). Num deles, ao lado de uma dupla de amigos, já encharcados de vinho, arrumamos confusão com um argentino chato que teimava em dormir. Qué raro dormir em cenário tão sensacional, não é mesmo?

Por uma vontade de fazer xixi antes da praia desejada, Helena nos fez saltar do trem em Vilassar de Mar. Garota esperta, essa Helena. Parecia que estávamos numa praia do interior do Ceará com barquinhos de pescadores. À noite, participamos – por puro acaso – de uma festa local com sardinha feita em churrasqueiras comunitárias espalhadas nas areias. E dessa vez conseguimos comprar os peixes em saquinhos plásticos, vendidos junto com pa amb tomaquet (ou simplesmente, pão com tomate catalão).



Não foi só. Minha ginástica era andar de patins no porto de Barcelona (uma das vistas na foto acima), esse que serve de modelo para os sonhos olímpicos cariocas. Nos tornamos Barça desde pequenininhos, comemos fuet em profusão, queijo curado, jámon serrano e vivemos a vida de pensão (já descrita em post anterior). Tudo sem muita pretensão, sem muito compromisso com o dia seguinte. A gente ia vivendo, trabalhando em loja, comendo, bebendo, falando sobre outra realidade, tão distante e tão diferente do Rio, onde há uma cobrança mais rígida do amanhã.


Falar de Barcelona é como reviver uma lua-de-mel, que acabou sendo em Buenos Aires, depois dos festejos juninos de 10 de junho. Pena é que, há quatro anos, Mafaldita ainda não estivesse sentada no banquinho em San Telmo, e a gente ainda imaginava que batizando minha empresa de ‘Vilassar de Mar’ repetiríamos o sucesso na tarde ensolarada da Catalunha.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Os nordestinos já foram consultados?

Tem foto hoje na coluna do Ancelmo Góis de um novo projeto para a feira de São Cristóvão. Nada contra os profissionais que doaram o projeto para o novo centro de lazer dos nordestinos – e também dos cariocas e turistas. Na hora, no entanto, me perguntei: “será que os comerciantes e os frequentadores querem a mudança, com tantos problemas que assolam o entorno do Pavilhão, no pobre bairro Imperial?”.

Nunca tinha ido na feira até ela se transformar no Centro de Tradições Luiz Gonzaga, dentro do Pavilhão. Diz M’Arrudão que era mais raiz, a Dani também foi e não reclama do que viu. Mesmo assim, as mudanças – me parece – foram bem-vindas pelos comerciantes e até pelos nordestinos. Os que trabalham ali passaram a ter seus boxes preservados, chance de armazenar os alimentos, sem contar com os banheiros ‘bem ok’. À época, no entanto, muita gente reclamou que o novo formato tinha tirado muito a autenticidade do local.

Nesta atual Feira de São Cristóvão, já cansei de farrear com os amigos até as tantas da madrugada, aproveitando todos aqueles petiscos maravilhosamente engordativos a preços módicos, ao som de muito forró. E já fui também nos restaurantes com preços nem tão em conta assim. Uma das maiores noitadas na Feira foi com paulistas, aqueles seres adoradores de shoppings, mas que ficaram muito satisfeitos.

E foi justamente essa impressão que me causou o novo croqui. A feira vai se tornar definitivamente um  shopping center. Aliás, como todo o Rio de Janeiro vem pouco a pouco se transformando. A ordem é padronizar, tirando de mansinho sem que a gente perceba, a graça da nossa informalidade. E que ninguém me acuse de ser contra limpeza urbana, ordenamento do trânsito, Lei Seca. Só que é inerente a nós, praianos, essa forma menos padronizada – o que não quer dizer suja.

Pra mim, os esforços poderiam se concentrar no entorno do Pavilhão – que, inclusive, já faz parte das áreas para revitalização nos planos de diversas esferas administrativas, junto ao Porto. Local, aliás, que, na minha modesta visão, merece olhares mais que atenciosos – como, pelo que tenho lido, vem sendo feito – acompanhados de investimentos em infraestrutura e urbanização. Mal consigo imaginar nosso Porto todo lindo, já que a realidade por lá é de muita degradação.

Mas, peloamordedadá, que não metam asfalto, grifes ‘estilo Daslu’ e temakerias no Morro da Conceição, porque daí sim vamos virar definitivamente paulistas.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Doce gostinho de Sessão da Tarde


Essa onda de Facebook está me levando de volta às origens. Tenho me deparado com pessoas que não imaginava mais ouvir falar na vida. Um dia aparece um coleguinha da alfabetização, outro a vizinha querida de uns 25 anos atrás. A gente mal sabe o que as pessoas fazem hoje, mas temos a chance de ver como está a família, o país onde vivem, uma ou outra foto de festa. É curioso e legal. Ao mesmo tempo que eu me sinto total diferente do que aquelas pessoas conheceram, me vejo como Michael J. Fox, em ‘Back to the future’. E essa sensação é boa demais, gostinho de Sessão da Tarde.


Estranho é encontrar na caixa de entrada pedidos de amizade de pessoas que não nos conhecem ou mesmo o amigo do amigo do amigo, que quer aumentar a rede. É fato que hoje as tais redes sociais funcionam como forte veículo de comunicação, são usadas para a divulgação de todo tipo de produto (incluindo até os políticos), muitas vezes com uma mensagem subliminar. A vantagem é clara: o preço desta divulgação é menor que o de banana. Basta ter internet e um computador. Nada que me faça engolir esta mania de divulgação em meio ao meu pequeno álbum sentimental. 

Pior ainda é receber ‘convites de amizade’ de pessoas que nos magoaram. Tá doido? Vamos limando, limando os de má fé. Numa análise rápida e rasa, fico com a sensação de que recebendo o ‘ok’ de amizade digital, essas pessoas pensam ter apagado o mal que um dia nos fizeram. Não, né? Melhor dar uma ligada, mandar um e-mail ou até mesmo nos procurar. É tão fácil atualmente descobrir o paradeiro de alguém, que nada justifica o anonimato do perdão virtual.

Outra saia justa do tal Facebook são as fotos de festa ou comentários sobre aquele evento que você não foi convidado. E pobre da noiva que teve que cortar a lista de convidados por não ter mais como bancar bufê e espumante pra mais de 200 pessoas. Nego tá nem aí e manda ver nas imagens da festa bombante. Dou risada. Já descobri no ‘face’ algumas festas em que fui deixada pra trás. A ignorância do esquecimento para cancerianas como eu é bem mais acalentadora. Fazer o quê? As redes sociais estão na moda, quanto mais postar, mais bem na fita fica sua imagem. E mesmo sendo cri-cri com a divulgação alheia, é quase impossível pra mim deixar de estampar já já este novo post na minha singela página do ‘face’.

obs.: esta foto que ilustra o post está na página da Luciene, minha madrinha de casamento, no dia do meu enlace com M'Arrudão. hahahahahaha. Lu, pode ficar tranquila, como não servi espumante, pude convidar todo mundo.     

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ter orgulho é bom e todo mundo gosta


Quando tinha uns 5 anos, minha sobrinha mais velha me matava de vergonha quando eu a levava pra festas e ela se apresentava como Bia Lindinha. Na época, ela mal sabia o porquê do meu acanhamento. Pra ela, esta era simplesmente uma forma de dizer que se sentia uma das meninas Super Poderosas. E eu, madrinha babona assumida, morria de orgulho da gracinha.


Sábado, à beira de completar 12 anos, Bia me fez chorar de orgulho pela enésima vez. Imagina a Dani, que é a mãe da nossa bonequinha! O motivo que nos provocou tamanha babação é que uma redação da Bia serviu de texto base para a prova de português do sexto ano na escola onde ela estuda, o Sagrado Coração de Maria, em Copacabana.

A redação fala sobre um encontro entre as princesas clássicas e os novos ícones dessa galera que está chegando à adolescência. A Bia me prometeu bater o texto e mandar por email pra que possa postar no blog. Até agora ela não o fez, me disse que está enrolada, estudando. Talvez seja vergonha. Vou aguardar ansiosa.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

É pode ser...


Afeeeeeee, o pior é constatar que esta passa ser, a cada dia, uma verdade mais verdadeira. Cada coisa que venho observando por aí, me faz crer realmente que Mafalda tem sempre razão. 

obs.: adoraria ver fotos da estátua da nova Mafaldita em Buenos Aires. De preferência com amigos ao lado. Mas acho que só eu mesma pagaria esse mico. Será?   

segunda-feira, 26 de abril de 2010

E ainda dizem que brasileiros adoram neve...


Em janeiro de 2005, meu visto francês de estudante venceu. Minha vontade de voltar ao Brasil era nula, já que M’Arrudão havia engatado nos estudos em Barcelona. Seguindo recomendações de um funcionário da polícia federal francesa, comprei passagens pra Genebra, fora da União Européia, o que me garantiria um novo carimbo com validade de mais três meses. Desesperado, Charif, marido da Daniela Géo, me disse que eu seria presa e deportada. Me sugeriu então um périplo: vá à Suíça, passe por Barcelona e volte para a França de trem. Segui os conselhos e fui.

Ao chegar em Genebra, de trem, não havia viv’alma pra carimbar meu passaporte. Ponto pros gringos, me dei mal. Fui então para o albergue, onde havia reservado uma cama num quarto para três meninas. Dei voltas e mais voltas por Genebra, achei tudo de um tédio sem tamanho, tirei umas fotos (como a publicada acima das pessoas jogando xadrez gigante na praça), comprei chocolates e voltei pro quentinho do segundo andar da beliche, pensando no dia seguinte, quando pegaria um voo para Barcelona.

A noite foi mais animada do que eu merecia. Minhas companheiras de quarto eram duas nórdicas – gays, que se amaram torridamente madrugada adentro, sem se incomodar com a minha presença. Ok, ok, eu também rumava ao encontro do meu amor. No dia seguinte, estava de pé às 6h e segui para o aeroporto. Ao pisar na rua, me encantei: nevava fininho e o cenário estava lindo. Mais fotos feitas, cheguei ao aeroporto. Fiz check in e, quando ia saindo do balcão, ouvi o que não imaginava ser um prenúncio de tragédia: o voo pode atrasar pois está nevando. Nem tinha me tocado.

A neve começou a apertar e os voos foram sendo reprogramados num efeito dominó, que começou a me tirar do sério. Tudo caro demais, o que me restou foi tomar sorvete – barato em função do clima. Ninguém me dava informações precisas da hora da saída do meu avião. Quando depois de umas sete horas de espera embarquei, o piloto avisou pelo microfone que havia tombado um caminhão de neve na pista e deveríamos aguardar embarcados por pelo menos mais uma hora e meia. Não aguentei, nunca tinha visto aquilo: tive uma crise histérica, chorava sem parar, tremia, babava. Uma cena de horror, que me matou de vergonha depois.

Preocupados, os meus vizinhos de cadeira avisaram aos comissários de bordo: trata-se de uma brasileira, acostumada ao calor dos trópicos, ela está em pânico, é preciso tirá-la daqui. Fui levada para uma salinha até que a pista fosse liberada. Na volta, com a cabeça baixa, sentei e vi o avião enfim tomar o rumo da Espanha. Meus vizinhos me ofereceram vinho – pago na Easyjet – como presente para me acalmar (acho que eles tinham medo de novo colapso. Aproveitei!).

Ao chegar na Espanha, o policial federal me pediu documentos, fez uma série de perguntas, checou a existência de um tal Alexandre Arruda da Cunha estudando em Barcelona. Foi pra salinha ao lado e voltou com um ‘ok’ estampado no rosto. Carimbou meu passaporte e me deixou passar com a garantia de mais três meses de acesso livre pela Europa.

Na saída, encontrei M’Arrudão abatido, preocupado e com o braço engessado. Sofrendo no frio, sozinho, teve uma zica muito bizarra na mão e os médicos teimaram em engessar. O pior tinha sido na noite anterior, quando os sujeitos do hospital Vall d’Hebron cismaram de interná-lo na marra, sem a chance de me pegar no aeroporto. Se eu soubesse disso em Genebra, a crise de perereca teria sido ainda maior! E Xande fugiu do hospital, correndo por uma porta dos fundos. Mas isso é outra história.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Dizem que ela existe pra ajudar

A blogueira, como bem diz no seu perfil, é dublê de jornalista. Andei enrolada com um frila (o famoso bico com nome bonito no métier dos jornalistas) e nem chegou perto do tão querido 'marcelledehistórias'. Devo não nego, pago assim que der. Meu trabalho me levou para bandas muito tristes do meu caro e amado Rio de Janeiro. A rebordosa é forte, passei dias me recuperando. Daqui em diante, estou pronta pra contar novas histórias.

Por conta do que vi, deixo que só Mafalda fale por mim. Segue abaixo tirinha roubada da internet.



terça-feira, 6 de abril de 2010

Qual sua origem?


Sábado, o Prosa e Verso trouxe uma entrevista com Marie NDiaye, ganhadora do Goncourt, o mais prestigiado prêmio literário da França, em 2009. O pingue-pongue pouco fala do livro que a fez ser vencedora. A tônica é o preconceito sofrido pela francesa por ser negra e ter pai senegalês, com quem só conviveu até um ano de idade. Nascida e criada no país, ela se ressente de agora ser taxada de escritora 'franco-senegalesa'.


Hoje, morando em Berlim, a escritora diz que tem 'horror' ao Sarkozy, que, segundo ela, incita este comportamento preconceituoso. Logo ele, filho de húngaros, como bem lembra a romancista na entrevista. Quando morei lá houve, inclusive, um episódio no qual um desses filhotes do presidente francês se volta justamente contra ele. Uma carta chega ao Eliseu com uma bala e, junto, um bilhete: “Húngaro sujo”. Prova do que ele tem cultivado naquele país.

Ao ler a entrevista, me lembrei de alguns momentos que passei por lá e da frase a que eu mais tive que responder: 'qual sua origem?'. Na faculdade de Perpignan, fui razoavelmente bem recebida pelos professores. Mas volta e meia sofria discretamente essa xenofobia que, não tem jeito, está incutida naquela gente. O mais curioso é que o preconceito vem muito mais dos jovens.

Por iniciativa de um professor, fui incluída num grupo de estudos sobre alunos que chegavam de outras cidades. Bom, eu era a única gringa do grupo. Era preciso fazer enquêtes para saber como se sentiam estas figuras. Pouco a pouco fui sendo excluída do grupo, de forma tão sutil que mal compreendia. Quando percebi, seria praticamente reprovada na matéria, simplesmente por que a coleguinha que puxava o grupo tinha dito ao professor que eu jamais tinha participado do trabalho, não respondia telefonemas e nem emails. Tudo mentira. A minha parte do trabalho foi jogada fora pelos pequenos Sarkos.

Acho também que há imigrantes bem aceitos que chegam a extremos. Um professor ‘franco-argelino’ me arrancou o dicionário (autorizado para não francofônicos) Le Robert durante uma prova por acreditar que eu estava colando. Fala sério, né companheiro? Euzinha, 35 anos de praia do Leblon, me ferrando, dura igual coco, pra fazer sociologia fora do país, vou colar? Não! Preciso de ajuda, aquela não é minha língua. Ele disse que eu não poderia ter a regalia de consultar o dicionário. Pode não ter sido nada, mas... eu acho que era.

Fora isso, em um ano de convivência, a única que me convidou pra conhecer sua casa foi a colega da Nova Guiné. Uma negona gente boa, bem estereótipo cheia de turbantes e roupas coloridas. E a professora que ficou chapa e ajudou mesmo chama-se Antígona. Ora pois, uma grega com certeza.

obs.: A foto foi tirada no campus da Universidade

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Meninos também brincam de boneca?


Quando tentava me virar em Paris, no segundo semestre de 2004, peguei um trabalho de babá para cuidar de duas crianças: Anatole e Berrile. Ele de uns 5 anos, ela uns 2. Os pais, franceses do interior que trabalhavam em multinacionais na capital, não gostavam que seus filhos assistissem à TV e eu deveria levá-los pelo menos duas vezes por semana à biblioteca do bairro. Até aí, não me causava espanto. Afinal, os franceses têm arraigado o saudável hábito de leitura – até os mendigos pedem esmola entre uma lidinha e outra.

Causou-me estranheza constatar que o menininho tinha bonecas. E logo taxei: é bicha! Aos amigos pra quem contava, também o taxavam de viado. Será? Hoje, estou cada vez mais convencida: meninos podem e deveriam brincar de boneca.

Na TV francesa, cheguei a ver feiras de brinquedos com estandes onde os meninos aprendiam a cuidar de uma boneca, dar mamadeira, trocar a fralda. Passei a crer que este comportamento não produz nos filhos a tendência ao homossexualismo. E se produzir, que mal há nisso? Ok, ok, ainda não tenho filhos e pode ser que a pimenta nos olhos dos outros não me faça mal algum. E, apesar de defender a brincadeira de boneca entre os garotos, acho que travaria na hora de dar ao meu filho um exemplar da Barbie, símbolo de beleza americana e consumista, que acabou tornando-se símbolo gay.

Anatole, no entanto, não me sai da cabeça. Outro dia lembrei-me dele ao ver que a Folha lançou um livro abordando o assunto. Na matéria, os autores explicam que até a postura diante do brinquedo-boneca é diferente entre meninos e meninas.

Curiosa, fiz uma pesquisa na internet e encontrei uma polêmica mais antiga, de 2002, acerca do lançamento do livro “O Menino que ganhou uma boneca”. Um debate gigante por conta da história de um garoto que brincava de ser pai. Não consigo entender o porquê. Ora, o menino não brincava de ser mãe, e sim pai. Mesmo um pai homossexual desempenha o papel de pai, não de mãe. Além disso, todos os homens têm hoje papel fundamental na educação dos filhos, muitas vezes dentro de casa, dando a mamadeira, trocando as fraldas e embalando para dormir. Se só nós, meninas, treinamos na infância, fica duro pros caras encararem a paternidade, como nós – doces mulherzinhas – que tanto sonham com este papel.

Bom, eu não vejo mal em reverter a ordem. No meu humilde lar, quem berra por gol sou eu, não o marido; quem tem fissura em carro e adora dirigir sou eu; quem me ensinou a cozinhar foi ele. Por outro lado, também não deixo de lado os babadinhos, os milhares de enfeites, além do rosa predominar no meu guarda-roupas. Tanto blá-blá-blá moderno não me tira a certeza de que, na hora que um moleque adentrar a casa, vou ter muita dor-de-cabeça com Alexandre para convencer de que as bonecas – não as Barbies! - são muito bem-vindas, obrigada.

quarta-feira, 31 de março de 2010

É nosso e ninguém tasca!

Há uma disputa em curso que promete dar fim a um dos endereços mais tradicionais de Laranjeiras: o número 24 da Rua Alice, onde há 66 anos está o Bar do Serafim.

Tradicional boteco do bairro, de onde saem por dia uma centena de litros de chope e de petiscos meio portugueses meio nordestinos, vive hoje de incertezas. Para muitos, o bar tinha apenas um dono: o bigodudo e querido Seu Juca, morto ano passado. A história é, no entanto, muito mais complicada. O negócio é dividido entre quatro proprietários, quatro famílias na verdade, e há um espólio que impede a assinatura definitiva da venda do negócio.

Para tristeza dos vizinhos beberrões, interessados no ponto não faltam. Segundo a atual gerente, mulher de um dos proprietários, que está à frente do restaurante, o documento de venda já está assinado, para infelicidade geral de quem fez dali o quintal de casa e teme que o lugar se transforme em mais um desses botecos “de grife”, que tomaram conta da cidade. Fiando-se na morosidade da justiça brasileira, os assíduos frequentadores torcem para que essa pendenga não chegue jamais ao fim.

Apesar de já ter destino certo, os mais fiéis formam – entre um chope e um torresmo – novas sociedades. O assunto predileto de quem se acostumou a sentar entre as mesas de madeira com tampo de mármore é como levar adiante – e fazer rentável – o empreendimento.

Sábado desses, de tardinha, a turma do balcão “fechou negócio” com direito a aperto de mãos e troca de telefones. “Cada um entra com R$ 15 mil e a promessa de manter a equipe e o cardápio”, propôs uma das novas sócias. Comprometidos com a próxima “reunião de diretoria”, todos tentam carregar a certeza: o Serafim é nosso e ninguém tasca.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Casa de pensão: uma trajetória de paciência

Quando em janeiro de 2005 decidi morar em Barcelona com o Alexandre, ele dividia um apartamento com figuras meio curiosas. Na verdade, ele sublocava um quartinho do russo que era o inquilino titular. No contrato tácito, ele poderia levar a namorada para uns dias, não pra morar. Ele já estava há três meses lá quando eu cheguei de mala e cuia. Decidimos dizer que eu estava apenas de férias (apesar da bagagem enorme, que ficou embaixo da cama) e que voltaria para Paris. Nesse meio tempo, a gente correu atrás de um apê só pra gente.

Essa busca foi em vão, caímos em golpes, perdemos dinheiro e não alugamos nada. Já vivendo uma situação bem delicada em meio aos russos, resolvemos procurar quartos para casal. Foi aí que encontramos a pensão da Luz Marina, no bairro Gótico, através de um anúncio de jornal. A amazonense marcou um encontro em meio às Ramblas e ficou nos observando de longe. Ao achar que se tratava de um casal confiável, veio ao nosso encontro e nos mostrou o que seria nossa primeira casa nesses seis anos de convivência.

Era um apartamento gigante, num belo prédio antigo, próximo à Praça Real, todo retalhado em quartos pra alugar. O nosso era o maior com geladeira própria, mesa, TV, cama, um armário grandão. Tudo bem feio, estilo Casas Bahia, mas havia uma varanda com vista pra uma pracinha e uma faculdade. Já cansados de não ter onde viver, topamos, pagamos e nos mudamos em três dias.

A vida na pensão foi uma lição. Havia apenas dois banheiros pra umas 15 pessoas, uma cozinha com fogão de quatro bocas e uma máquina de lavar. Pra usar utensílios tão fundamentais, a gente encarava fila com pessoas de nacionalidades variadas. Tinha brasileiros, argentinos, espanhóis, venezuelanos, etc.

Assar um frango era uma batalha. Tínhamos que deixar ali o almoço por horas até que alguém sinalizava a nossa vez. Havia também a convivência bacana de ver as diferentes comidas que saíam daquela cozinha. Aprendemos a fazer uma verdadeira tortilla espanhola e os hábitos dos hermanos.

No banheiro, a convivência era menos pacífica. É nojento dividir uma privada com tantas pessoas, eu vivia com álcool na mão, pra fazer a higiene da louça antes de usar. Adquiri também o hábito – que jamais perdi – de só tomar banho de havaianas.

A Luz tinha uma filhinha adotiva, de uns três anos, vinda da Amazônia, que era minha paixão. Sempre que ela aparecia, a gente brincava, eu mostrava meus brinquedinhos, minha ovelha de pernas longas e fazia teatrinhos, que ela amava. Ali, a gente também exerceu a paciência e nos tornamos ‘os melhores inquilinos’, já que limpávamos tudo, não causávamos transtornos e tal.

Houve até casos de polícia com um casal meio barra pesada, que cismou de brigar aos berros com ameaças graves com facas em punho. Outro casal, esse espanhol, levava comida pro quarto e não lavava a louça. Quando a Luz foi obrigada a invadir o espaço deles por conta de péssimos odores, o que se via era o inferno em forma de sujeira. Um horror!

Saímos de lá quando voltamos para o Brasil, em novembro de 2005. De volta à Copacabana, minha mãe nos presenteou com uma temporada num pequeno loft só pra gente, na rua Anita Garibaldi, até que a vida por aqui voltasse aos trilhos. Depois de quase dois anos longe, voltei a exercer o meu direito à privada própria, deixando de lado a embalagem de álcool líquido que havia se tornado minha amiga inseparável.

quinta-feira, 25 de março de 2010

No século XXI, com a cabeça das nossas avós


A primeira matéria que me pediram pra fazer na finada revista Ponto TV, que sobreviveu poucos meses no JB, foi o lado B do Alemão, vencedor do Big Brother Brasil, em abril de 2007. Ovacionado pelo público, ele levou o prêmio de R$ 1 milhão com 91% dos votos contra sua concorrente. Os editores queriam, no entanto, que eu provasse por A + B que a emissora tinha manipulado o público para a construção de um herói.


Pesava nesta certeza dos editores, fatores como: o triângulo amoroso protagonizado pelo cara, suas atitudes meio grosseiras, a afirmação de que não mantinha compromisso sério com mulheres por mais de três anos e ter sido escolhido pra participar do programa por um olheiro dentro de uma boate de bacanas em São Paulo. Resumindo: tinha tudo pra cair na desgraça das moças que, acredito, são as que mais votam.

O resultado – quem acompanhou, sabe – é que, de fato, ele virou herói e há tempos multiplicou seu milhão. Hoje é estrela de programa de um dos canais a cabo da emissora.

Recentemente, Dado Dolabella ganhou a primeira edição da Fazenda, em outra emissora. Não acompanhei o programa, mas sempre soube que a situação deste ator, estampada em várias revistas do ramo, mostra que suas atitudes nunca foram lá muito corretas. Entre as mais chocantes, o sujeito bateu em mulher. Putz, como é que alguém poderia acreditar que a mulherada iria dar uma grana pra ele e não pra outra candidata?

Tá, são só dois exemplos e, certamente, há mais casos no estilo. Lembrei disso tudo hoje, quando li numa coluna de TV do Globo, que o Dourado está na terceira posição do ranking do site celeb.com.br, da revista Reader’s Digest, atrás apenas do Lula e da Dilma. Como assim? Acho que a piada masculina tem mesmo razão: não dá mesmo para entender mulher.

Nós, hoje em dia, muito mais independentes, não buscamos os fofos, gentis, trabalhadores, simpáticos, que não berrem com a gente? Hmmm, acho que estou sozinha. As mulheres continuam querendo os fortões, machistas e mandões, pra colocá-las nos eixos! Caramba, isso me soa tão démodé. E a emissora tentando dar de moderninha, escalando elenco com homossexuais assumidos pra mostrar a nova realidade mundial.

Como o grande veículo de massa, reflexo de quase tudo o que pensa nossa sociedade, a TV mais uma vez mostra que o mundo continua uma caretice só. Mesmo que, diante das amigas, as mulheres não confessem suas preferências, no anonimato do voto, elas vivem como nossas avós. Sei não, acho que a gente ainda tem que comer muito feijão com arroz pra suportar, entender e conviver com o mundo tal qual ele se apresenta hoje.



terça-feira, 23 de março de 2010

C'est bizarre! Qué raro! Ou, simplesmente, mundo estranho


Qual o real significado da palavra bizarro? O aurélio aponta, entre outras definições, esquisito. Como sempre tive uma postura, digamos, pró-ativa em matéria de bizarrice, acabo achando que o que chega a ser bizarro pra mim, pode ter uma classificação ainda mais pesada pra você. E vice-versa. Meu contato com o diferente (será que este pode ser um sinônimo?) é sempre bem-vindo. Adoro uma bizarrice! Exceto aquelas mostradas aos domingos em programas de auditório, que expõem em rede nacional deficiências físicas. De resto, topo as empreitadas.


E faço coleção de histórias que, para muitos, têm um sabor indigesto. Adoro pegar o S20 pra chegar à Barra e acho mais emocionante do que montanha-russa de parque americano, fui mordida no bumbum (sabe lá por qual bicho) enquanto desfrutava das delícias dos Lençóis Maranhenses, morei em quarto de pensão em Barcelona, andei 35 quilômetros por conta de tempestade e fui demitida sumariamente do posto de babá, por deixar a porta bater com a chave por dentro enquanto tentava apartar a briga escada abaixo entre duas crianças de 3 e 5 anos.


Fora os extremos, um dos momentos estranhos que já vivi foi conhecer a cidade de Mucugê, interior da Bahia, encravada na deslumbrante Chapada Diamantina. Até aí só boas indicações. Só até aí. A cidade se vangloria de ter e manter um cemitério construído no estilo bizantino como forma de atrair turistas. Na onda da principal atração local, na praça central há um carrinho em forma de caixão pra entregar delivery quem passa da conta nas bebidas alcoólicas (fiz a foto, que abre este post, mas estava beeem sóbria!).

Outra esquisitice foi percorrer os esgotos de Paris. Ok, ok, na França jornalista não paga entrada em museus públicos. Valendo-me do benefício, não paguei e entrei pra sentir um dos piores fedores da minha vida. Apesar do desconforto, a experiência vale a pena, por imaginar há quantos séculos aquilo foi planejado e construído.


Aliás, a França não é só glamour como vendem os folhetos de viagem. Em Ceret, cidadezinha turística no pé das montanhas nevadas dos Pirineus, a primeira parada dos visitantes é a Ponte do Diabo e na placa há uma pixação onde se lê ‘ponte dos suicidas’. Isso lá é atração? A construção é bem bonita, como mostra a foto acima, mas bem podia ter sido batizada – ou rebatizada – de outra forma.


Mantendo aquela tal atitude pró-ativa na busca por bizarrices, às vezes, mesmo desconfiada, sigo adiante nas minhas ideias. Ano passado, a cara dos amigos e da família quando disse que iria para a Ilha de Marajó passar uns dias de folga era de espanto. “Querem ver miséria?” De fato, a pobreza é visível por todos os cantos. A ilha, no entanto, tem muitos encantos, como ver búfalos como se fossem cavalos andando pelas ruelas (foto abaixo), belas praias de rio e hospitalidade de primeira, que nos leva a escutar aquelas histórias que só em cantões do Brasil a gente ouve e se delicia, entendendo melhor como vive o povo brasileiro.



Aliás, nestas incursões pelo país, já passei pela bizarrice de ser observadas por uma família de porquinhos enquanto fazia xixi numa parada de ônibus entre o Maranhão e o Piauí. Há algo mais estranho do que cruzar o interior destes dois estados em ônibus de linha, a famosa "Marinete"? Claro que tem – pra mim. De repente, não pra você.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Somos todos brasileiros, graças a Deus!



“Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo estão acima. Os caboclos vêm abaixo, o meu é o Tupinaná”. Esta frase é de um sujeito boa praça que frequenta o salão vazio do Bar do Serafim, na rua Alice, aos sábados. A hierarquia religiosa do rapaz em questão é bem curiosa, mistura a Santíssima Trindade com o candomblé. Vai entender. Mas, cá entre nós, há no Brasil alguém que reze por uma só cartilha?


Nossa confusão é tão grande que até o IBGE resolveu ir a fundo na pendenga e vai lançar a campanha, para a enquete que será feita esse ano, cujo mote diz “Neste Censo, declare seu amor ao seu Orixá/Diga que é do Santo, diga que é do Gunzu, diga que é do Axé/Pois quem é de Umbanda, quem é de Candomblé/Não pode ter vergonha, tem que dizer que é!”. Quem sabe desta forma, as pessoas fujam da resposta fácil ‘católico’, e revelem de fato qual é sua crença.

Eu mesma, que me autodenomino católica, volta e meia me pego em pensamentos espíritas e, na ingênua ansiedade, já me consultei com várias cartomantes. Realidade mais que nossa, minha madrinha no catolicismo há tempos é budista e – acho eu – nunca soube rezar uma Ave Maria. Dane-se: ela faz parte de um seleto grupo, daqueles que se dão sem medidas ao amor ao próximo, repetido nas missas que eu muito frequentei rezadas pelos padres do Santo Agostinho, na Santa Mônica.

A minha confusão vai além: tenho certeza que os mortos estão sempre ao meu lado. Volta e meia, bato um papo com a antiga proprietária do meu apartamento e sempre senti a presença da minha avó quando morei na casa dela, depois de sua morte. Em outro momento, ocupei o apartamento de uma tia que partiu pra uma melhor, e também tinha lá minha certeza de que ela estava ali. E nunca senti medo, se elas vêm é porque querem estar perto de mim. Se fosse realmente uma católica fervorosa, teria certeza de que elas estão no paraíso e jamais voltariam pra falar comigo. Será?

Diz a Rô que sua mãe viu certa vez um homem negro, boa pinta com a cara boa, com as mangas da camisa dobradas na alturas dos cotovelos, observando as duas fazendo arrumações no armário. Não é que tempos depois, ela fisgou o Aluisio, sujeito com essas descrições? Tá, a Rô é mineira, conta que a mãe fazia os filhos ajoelharem pra rezar com a “palha benta” queimando pra espantar os raios durante os temporais. Eita povo estranho, sô! E depois dizem que lugar de sincretismo é a Bahia. Vai passar uma tarde com a amiga mineira pra ver quem tem razão.

Carioca clássica, minha sogra é do candomblé. Mas não tem santo dia que ela não me conte que foi batizada, fez comunhão e crisma. Muito depois, ela raspou com o santo, lá no terreiro, mas volta e meia está rezando numa igreja do Centro da cidade e não perde uma festa do dia de São Jorge. Além disso, acredita nos búzios e nas cartas. E, então, a sogra é católica ou macumbeira? Acho que a resposta certa é “ela é brasileira”.

Outro grande exemplo vem de um amigo que está longe, no Planalto. Arthur segue à risca a música de Raulzito: “já fui Pantera, já fui hippie, beatnik, tinha o símbolo da paz, pendurado no pescoço porque nego me dizia que era o caminho da salvação”. Hoje frequenta um terreiro lá pelas bandas de Brasília. Amanhã, sabe lá. Há até pouquíssimo tempo era Vicentino de não perder missa aos domingos.

Para resumir, só mesmo a frase brincalhona de outro amigo, o Caio, que, com um risinho irônico, se define: “Sou comunista, graças a Deus!”.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Inteligência pra dar e vender


Há uma frase dita pela minha irmã, Danielle, uma bacharel em direito, que tem martelado na minha cabeça nos últimos tempos. “Há outros tipos de inteligência, além dessas que vocês jornalistas consideram”. Velha rixa, jornalista versus advogados? Alexandre, roxo de raiva, me diria que sim. Apesar das diferenças na formação acadêmica, acho que a Dani tem lá sua razão.


Como repórter, atuei nas áreas de cidade, cultura, TV, informática (sic!), turismo, e lá atrás tive um pouco de contato com a complicada economia. Como lição dos editores, aprendi que meu dever era escrever sem complicações pro leitor. Se a gente levar em conta que muitas dessas funções desempenhei em jornais populares, o ‘descomplicar’ é ainda mais profundo.

Daí, me peguei em 2010 cheia de planos de mudança. Não pela primeira vez, pois entre 2008 e 2009 fiz a conclusão do curso superior de sociologia. E a verdade para os profissionais desta área é muito distante da jornalística. Lá, apaixonada pela volta aos estudos, mergulhei de cabeça. Morria de rir porque nos trabalhos acadêmicos você tem que problematizar as situações. Cuma? A ordem nas redações – a minha verdade - é “traga-me soluções, e não problemas”, o famoso "se vira". Como estava longe da faculdade há uns 10 anos, pensei: este é um outro tipo de inteligência. Ponto pra Dani!

Passado um tempo, um trabalho aqui, outro ali, me peguei querendo aprender leis para desempenhar uma função bacana no recém-criado Instituto Brasileiro de Museus, que abriu dezenas de vagas pelo país. Pra entrar, através de concurso, tem que saber direito administrativo. A minha apostila diz que é direito dos funcionários públicos faltar ao trabalho por dois dias para se alistar como eleitor. Este é, sem dúvida, um outro tipo de inteligência que eu ainda não alcancei. Então para entrar no serviço público não é preciso ter 18 anos, um título de eleitor e estar em dia com as obrigações com a Justiça eleitoral?

Além das apostilas de direito, por que nem tudo são flores no meu mundo, me encontro emburacada num frila onde o assunto é o mundo corporativo (e que, por sinal, não me dá tempo de estudar para o tal concurso bacana). Sabe qual é uma das minhas maiores dificuldade? Nas entrevistas, os caras mesclam palavras em inglês como se fossem sinônimo de português, no estilo "os papéis foram negociados no spot chinês em vez do bench mark padrão, durante o rump up de 2009". TODAS as palavras e expressões têm tradução para a tão cara língua de Camões. Por que diabos então os caras falam em inglês? E pior: misturando as duas línguas, lembrando aquelas cenas patéticas da novela A Indomada, na qual os personagens metiam o inglês no português, sem perder o sotaque nordestino.

Cheia de razão, a Dani certamente me diria: “Viu, há muito mais coisas a entender no mundo do que pensam vocês, pobres jornalistas!” E o pior disso tudo é que, cada vez mais, dou o braço a torcer.



terça-feira, 16 de março de 2010

Pequeno manual de sobrevivência


A pedido do amigo Guilherme Freitas, vou contar nossas peripécias com o bidon, nos meses em que moramos na pequena e pacata Canet en Roussillon, sul da França. Bem, bidon nada mais é do que um galão, desses que o pessoal tem no carro pro caso de faltar gasolina. Lá, a função é outra e muito melhor. Para estar inserido na pequena sociedade canetoise, é preciso, de cara, adquirir o seu. Em seguida, o sujeito leva o seu galão à cave mais próxima e arremata por algo entre 1,50 e 2 euros/litro vinho direto do produtor.


Os olhos do Alexandre com a descoberta da venda de vinho au details (a bebida fica estocada em enormes reservatórios e é retirada por uma bica) brilharam como nunca. O cara pirou, por que não faltavam opções de caves, mercados e até produtores de vinhos da região – local de solo pedregoso, que produz não só tintos e rosés, como também um tipo de branco (Muscat) mais adocicado e servido como aperitivo.

Quando a Lia e o Guilherme – introduzidos ao nosso mundinho pelas amigas Vivian Rangel e Mariana Filgas - cismaram em morar em Canet (e não em Perpignan, como sugeri por email), cumprimos nosso papel. Demos dicas de onde morar, horário do ônibus, preços, tudo como manda o figurino. E, claro, não deixamos de lado a dica mais importante. “Meninos, comprem seu bidon!” Orgulhoso, Alexandre mostrou o nosso de dois litros e explicou como era feita a venda de vinhos por aquelas paradas. Na mesma semana, já era comum esbarrar com um dos dois pelas caves.



No princípio, eles usavam garrafas d’água – como também fazem alguns franceses. Guilherme só foi adquirir o seu em um dos passeios ao Chateau l’Esparrou, um belo castelinho produtor que fica à beira da estrada de Canet. E ainda humilhou o meu Alexandre: pegou logo um de três litros.

O resumo desta história, pra mim, é que amizade de bidon não é de brincadeira. Depois de instalados num belo apartamento na Vieira Souto de Canet, a dupla não cansava de nos fazer convites para bate-papos regados a vinho. De bidon, claro. Só víamos os engarrafados quando a Lia tinha convidados muito ilustres. No começo, ainda me sentia acanhada quando o Guilherme começava a bocejar, mas a cena passou a ser corriqueira e a resposta da amiga também: ‘deixa ele, a gente continua’. Intimidade conquistada, o casal Justo-Arruda cansou de matar o meu, o deles, os nossos bidons em conversas longas madrugada adentro.

sexta-feira, 12 de março de 2010

La Retirada, o triste destino de espanhóis na França



A gerente da minha conta bancária de Perpignan ao saber que meu ofício é o jornalismo, me contou parte de uma história pouco divulgada e muito triste da França. Neta de espanhóis, ela me relatou detalhes de La Retirada, que estava completando 70 anos, em 2009, e seria relembrada com manifestações de várias naturezas. Entusiasmada com a história, contei tudo pro Alexandre e fomos atrás destes eventos pra vender a matéria para alguma revista especializada. O frila nunca emplacou, mas a gente aprendeu um bocado e se emocionou com os relatos, as fotos e as manifestações.

Em 1939, com a queda de Barcelona - último foco de resistência a Franco, que caiu em 26 de janeiro – e o fim da Guerra Civil Espanhola, aconteceu o que muitos estudiosos consideram a maior fuga em massa daquele país. Meio milhão de espanhóis fugiram, muitos a pé, através das montanhas geladas dos Pirineus, em pleno inverno, procurando abrigo no país vizinho. Ao chegarem à França, porém, a acolhida foi em Campos de Concentração, nas localidades de St-Cyprien-Plage, D’Argèles-sur-mer, Gurs, D’Agde, Septfonds, Vernet e Bram.

Seguindo as orientações da minha gerente, o casal Justo-Arruda fez parte de uma marcha, com cerca de 1.500 pessoas, entre a prefeitura de Argèles e a praia, onde estava sendo gravado um documentário e havia uma pequena cidade cenográfica – no exato local de um dos campos de concentração. Ali foi deixado um marco em memória aos mortos. No caminho, familiares pararam e depositaram flores num pequeno monumento já erguido anteriormente em homenagem a esses espanhóis, como se fosse um cemitério (foto acima).



Neste dia, Alexandre (na foto acima) entrevistou um sobrevivente de 101 anos, ex-combatente das Brigadas Republicanas. O velhinho teve que fugir do regime militar e só não acabou num dos campos de concentração porque teve a sorte de não fazer o caminho dos que caíram na enrascada.

Nos dados, pesquisados pela gente, vimos que as precárias condições de vida no lugar chamaram a atenção da comunidade internacional. Entre os que se destacaram na defesa dos refugiados há nomes como Pablo Neruda, então embaixador do Chile em Paris. Ele conseguiu, naquele mesmo ano, “exportar” para o Chile 2.500 exilados. Outros tantos foram para o México e demais países latino-americanos.

Figura importante de La Retirada é uma enfermeira suíça. Elizabeth Eidenbenz conseguiu montar uma maternidade num antigo castelo abandonado, na cidade de Elne, onde nasceram 400 crianças, filhas de refugiados. Num lugar em que a taxa de mortalidade entre os recém-nascidos era de 90%, sobreviver ao parto já era um milagre. Muitos ainda estão vivos. E - até o ano passado - ela também, com quase 100 anos, morando na Suíça.

Hoje, esses lugares – onde havia campos de concentração - são balneários com belíssimas praias, iates e lanchas, frequentados pelas classes média e alta do sul da França. O cineasta catalão Manuel Herga estava produzindo um filme sobre a maternidade de Elne, com foco na bela história de Elizabeth. Se o longa-metragem cheguar aos cinemas do Brasil, a galera vai entender ainda melhor o que aconteceu – e como sofreram – estes espanhóis.

Obs.: Este post é 50% do Alexandre e os outros 50% divididos pela Marcelle e a Mafalda.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A culpa é do Maneco




Manoel Carlos sempre foi meu novelista preferido. Seu cenário é o Leblon – bairro onde cheguei com 4 anos e saí com 27. Atualmente moradora de Laranjeiras, sinto saudades de lá. E lamento, do fundo do coração, cada vez que as construtoras ganham a batalha contra as APACs.

É certo que não vejo mais o meu Leblon, agora cheio de nouveau riche e artista de fama repentina. O máximo das glórias, no meu tempo, era ter como vizinhos o casal Lucinha e Ivan Lins. Até tinha milionários, mas eles não eram maioria. Havia de tudo, os endinheirados, que não gostavam da Barra ou achavam Ipanema muito liberal, e os classe média-média, funcionários do Banco do Brasil ou militares, que se espalhavam pelo condomínio dos jornalistas, a Selva de Pedra e os belos predinhos sem elevador. 

A gente frequentava Lucas, Panelão, Degrau, Bozó, Final do Leblon. Vai procurar um desses agora? Resta um ou outro e sempre com aquela cara de ‘estou-tentando-me-modernizar’. No lugar dos antigos, reinam absolutos os chefs grifados pra quem pedir um escalopinho com arroz à piamontesa soa como ofensa. E tome espuma de salmão pra lá, macarrões de palmito pupunha pra cá. Podem me chamar de recalcada, afinal deixei a praia e a água mais perto a que tenho acesso é a piscina do Fluminense. Dou de ombros, gostava da joalheria que consertava relógios na Ataulfo, das lojinhas de sapato onde comprei minhas primeiras Melissinhas, da livraria Argumento pequenininha, sem frescuras. O comércio está todo diferente. No lugar de temakerias, yogoberrys, lojas multimarcas, a gente tinha mais armarinho, sapateiro, loja de ferragens, de tecidos.

Isso sem contar com as casas, antiguinhas bem ao estilo que luta em persistir até hoje na Urca. No meu caminho entre minha casa (aliás, uma delas), na rua San Martin, e a academia de balé, na Dias Ferreira, passava em frente à casa dos sete anões na Rainha Guilhermina. Saudosismo? Pode ser. Devo, no entanto, esquecer: o Leblon cresceu, apareceu e tornou-se bairro de PIB norueguês. Os preços são todos astronômicos.

Dizem as más línguas que a culpa é do Maneco. Dou risada, pois não acredito – ou só um pouco - que ele tenha responsabilidade pela descaracterização do bairro. Mesmo assim, tenho sentindo uma ponta de raiva do meu novelista preferido. A causa é a nova rotina que ele introduziu na minha vida: com aqueles depoimentos, choro compulsivamente todos os dias no final do capítulo de Viver a Vida.

obs.: ok, ok, a foto não é 'da minha época' do Leblon.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Bufê Brasil



O que eu mais gosto nas viagens é a comida. Coisa de gente que tem alma gorda. Como toda minha família é assim, nem ligo. Sigo – com galhardia – a sina dos que estão sempre na luta contra a balança, vivendo neste país que oferece tão diferentes iguarias de norte a sul. Veja só, tem coisa mais sem graça do que ir ao Pará e não comer peixe de rio, castanhas em profusão, tucupi e tacacá?



Bom, eu me jogo sem medo. A experiência do tacacá, agora em dezembro, foi péssima. Aquela gosma causou-me náuseas. Fazer o quê? Experimentar de tudo faz parte do jogo. Na saborosa memória gustativa, ficaram os deliciosos sorvetes, os recheios de cupuaçu, a carne e o queijo de búfala de Marajó e os peixes.


Já em Minas, a orgia gastronômica foi no Xapuri, na Pampulha. Afeee, quanta coisa boa. Carne de porco, regada a cachacinha, bolinhos de aipim, doces caseiros. Mal dava pra levantar depois de tanto comer. Já São Paulo é aquilo. Tiramos onda de mano na badalada rua Aspicuelta, mas fomos nos fartar na festa da Santa Achiropita, seguindo orientações da imprescindível Anastácia (http://anastacianafeira.blogspot.com/) e depois, claro, numa tradicional cantina italiana onde tinha até um galo bizarro de madeira que descia (não lembro bem por quê) e “cantava” no meio do salão.

Quando – em priscas eras – fui ao Maranhão me deliciei com pata de caranguejo, caldo de sururu e moqueca de siri catado, já provado e aprovado em Salvador, quando estive lá pela primeira vez pra cobrir o ‘show-concerto’ do Pavarotti, pelo jornal O Dia. Com Alexandre, a gente se fartou no Iemanjá, também na capital baiana. “E desce mais um acarajé – peloamordedadá!”.

Opa, Dadá é de outro estabelecimento. Quando fui a Salvador pela primeira vez – para cobrir o tal ‘show-concerto’ - tive uma das visões mais felizes para almas gordas. O canal, que fez o convite aos jornalistas, fechou o Varal da Dadá, no bairro Alto das Pombas, para o jantar após a cobertura do evento. Todos os pratos – dispostos em bufê – só pra gente.

Pra mim, comida boa tem em todo canto, mas cada uma com seu Q especial. Ao meu paladar, a Bahia é campeã, mas eu sou suspeita, talvez pelos laços de família que me unem ao estado. Afinal, quando fui a primeira moradora da casa da minha avó, após sua morte, a única garrafinha que resistia na geladeira era de azeite de dendê. Como eu trairia, então, minha tão amada vó Gilda?

(As fotos foram feitas no mercado Ver-o-Peso, em Belém, dezembro de 2009)

Autonomia de vida



Outro dia peguei um táxi e, como de costume, puxei papo. Adoro a classe, apesar de achar que corrida de R$ 19 tem que ter o troco de R$ 1. Algo que muitos desconsideram ou fingem que. Também reprimo preços fechados para turistas visitarem o Corcovado – aqui pertinho da minha casa nas Laranjeiras – o que torna o assunto recorrente nas minhas corridas, já que meu costume é subir pra pegar o Rebouças, passando em frente ao cartão-postal.

Posto isso, gosto dos caras. Mas o papo da autonomia me tira do sério. Neste dia, que falei lá na primeira frase, o moço me contou que ele é o ‘motorista-auxiliar’ e aluga o pacote: direito a ser ajudante do proprietário e, com isso, usar o automóvel. Entendi, entendi. O dono do veículo não utiliza seu direito conquistado junto à Prefeitura de ‘autônomo-titular’. Sabe lá se é assim que eles se autodenominam.

Então, o que faz o cara? Aluga por R$ 2,6 mil o pacote pra este motorista-meu-amigo, que trabalha umas 12 horas diárias pra fazer mais uns R$ 2,5 mil. Cuma? Então, conseguir da prefeitura a autonomia já lhe dá quase o sustento? Daí, ele compra o carro e pega um desempregado desesperado pra gerar sua própria receita. Desculpa, não entendi. Não seria esta autonomia uma autorização para a pessoa ser taxista? Talvez não. Primeiro o cara compra o carro e depois aguarda promessas de campanha de que serão oferecidas mais autonomias pela administração pública. Isso me cheira a Tostines (é fresquinho por que é bom ou...). Se o sujeito precisa de carro pra ter autonomia, como vai conseguir os auxílios garantidos por lei pra comprar um automóvel-táxi?

As respostas são várias e há muitos anos se debate o problema. Ele, apesar de velho, não me desce goela abaixo. Pra mim, motorista-titular é o que trabalha. E ele tem (ou deveria ter) como provar isso na Justiça trabalhista. Neste caso relatado, o moço me mostrou toda sua organização, com anotações sobre quilometragens e gastos com combustível.

Mas o motorista-amigo não suporta mais trabalhar por dois. Vai vender sua casa pra comprar uma autonomia (como assim?), um carro e passar apenas a pagar as prestações do automóvel. O sonho dele é ter um Meriva, como manda agora a ordem da praça.

Sugeri, quase na porta de casa, que ele procurasse a Defensoria Pública – quem sabe uma assessoria gratuita jurídica o auxiliaria a ter o direito a uma autonomia e só ficar pendurado pela aquisição do carro? Ele não acredita na Justiça e nem no auxílio jurídico. Assim como muitos outros brasileiros, meu amigo taxista só crê que para ser cidadão neste país é preciso ter grana, muita grana.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Fidelidade de serviços só presta com chope

Essa papo de fidelidade de serviços nunca foi muito a minha praia. Ops, antes de qualquer dúvida, explico: fidelidade marital eu tenho até de sobra. M’Arrudão é meu, ninguém tasca, e eu não o deixo por ninguém. Fora meu Alexandre, não sou fiel. Não imagino – e nem quero - debater a relação com aquela manicure que tira um bife atrás do outro. Prefiro procurar o salão, a lavanderia, o sapateiro, a operadora de celular ao lado.

Mesmo detestando esta tal fidelidade de serviços, não nego que em boteco a história é outra. E tudo é mais sério. O contrato tácito é seguido à risca. Depois que a relação de confiança está estabelecida, tudo são flores em locais não tão glamurosos, mas amadíssimos pelo casal Justo-Arruda.

Quando estávamaos na Domingos Ferreira, em Copa, a paixão do casal – sem direito a ménage à trois – chamava-se Lene, garçonete do Café e Bar Pierrot. Lá, nós tínhamos direito a mesinhas e cadeiras (leia-se bancos e barris) mesmo nos dias mais lotados, com cervejas geladíssimas repostas sem delongas.

Em 2008, pela força da mudança para a Prudente de Moraes, em Ipanema, a fidelidade pela Lene acabou. Durante a bela campanha do Fluminense rumo à Libertadores, nos tornamos amigos do seu Zé, no Café e Bar da esquina das ruas Vinícius de Moraes e Nascimento Silva. A grana andava curta, ver jogo de futebol em casa com M’Arrudão é mais entediante do que missa de sétimo dia e o bar nos oferecia cerveja gelada no balcão com direito a TV.

De tanto me esgoelar pelo esquete tricolor, seu Zé se apegou – e nós também! A cada vitória, ele nos dava uma cerveja grátis. Pra desespero do Alexandre (que é um vascaíno de meia-tigela), todo mundo no boteco passou a chamá-lo de tricolor. Seu Zé gostou tanto da gente que se eu passasse à tarde apenas para um cafezinho, ele fazia questão de dizer que era cortesia da casa. Jamais cobrava. Na despedida de Ipanema, lotei o bar com os amigos do coração. Seu Zé até se emocionou com freguesia tão seleta e ensaiou lágrimas quando disse que estava partindo pra França, em missão de estudos.

Agora, em Laranjeiras, nosso coração está a mil pelo Cris e a turma do Serafim (Serafa para os íntimos), na rua Alice. Já conquistamos a saideira gratuita e até o pendura proibido. Bom demais chegar e só falar: “O de sempre, por favor!” As notícias por lá não são as melhores, mas isso daí já é uma outra história...

sábado, 6 de março de 2010

Tem choque de ordem em Paris?



Uma passagem paga em mil vezes sem juros da Air Europa me fez voltar à Paris, em 2007. Foram 21 dias de férias, sozinha. Junto com a passagem paguei mais duas semanas de curso de francês na minha escola do coração, a France Langue da Place Victor Hugo.

Como dei entrada com antecedência, achei que juntaria dinheiro ao longo dos meses pros gastos na minha cidade preferida no mundo. Esse negócio de economizar nunca foi comigo e, nas vésperas da viagem, tinha o básico pra ficar na Cité Universitaire e pagar o bandejão. Ia também passar uns dias na casa da Manu, irmã da Carol Zappita, em Londres. Ou seja, mais gastos – bem gastos, mas não tinha de onde sair a grana. Afinal na época era funcionária do JB, um tipo de sujeito que não consegue fazer graça nem com as contas do mês, imaginem viagem à Europa.

Corri então pra minha mãe e pedi: “faz aí uns chaveiros com fitinhas do Senhor do Bonfim e umas pedritas brazucas, vou vender no curso”. Ao chegar em Paris, quem disse que eu tinha coragem de oferecer os penduricalhos pros colegas internacionais? A bagagem estava, no entanto, lotada de souvenirs by dona Eliana.

Não tive dúvidas: vou camelotar. Discretamente, já que tinha medo de ser pega pelo choque de ordem do Bertrand Delanöe. E fui. Peguei espaço na feirinha da Place de Luxembourg, espalhei os chaveiros por cima de um lenço lindo, e fiz sucesso. Vendi pra burro. O que sobrou, desovei batendo de porta em porta, tal qual vendedora da Avon.

Et voilà. Com a receita, conheci a casa do Monet (foto), em Giverny, o Parque Asterix e tomei chopes maravilhosos em Bruxelas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Na Espanha, em rede nacional



Não foi só no asilo-abrigo que tive minha celebridade-relâmpago na Europa. Quando morei em Barcelona, acompanhando estudos do Alexandre, caí de pára-quedas como vendedora de uma loja de souvenirs, no bairro Gótico.

Cheguei sem falar uma palavra de espanhol e muito menos de catalão. O que, segundo o amigo mezzo argentino mezzo brasileiro que me arrumou o trampo, não havia de ser nada. Ensinaram-me umas palavrinhas básicas e me joguei na empreitada. Não era lá tão divertido, mas valia um bom troco.

O grande problema da loja – chamada Pulpos, na calle Boquería (foto) – eram os ciganos que atacavam o comércio atrás de qualquer mercadoria. Como não sou espanhola, muito menos catalã e nada tenho contra os gitanos, não achava que isso me causaria problemas.

Ledo engano. Os caras – aliás, as crianças ciganinhas - me perturbavam. Acho que percebiam minha fragilidade com a língua e caíam em cima da mercadoria exposta no meu turno. Até em meio à roda de dança eles me meteram, e roubavam o que viam pela frente. No dia seguinte, ainda vinham me afrontar, portando na esquina, em frente à loja, os óculos, chapéus e bolsas, roubados na véspera.

Comecei a ficar danada. Os outros funcionários me incentivavam a bater nos moleques. E eu pensava: “Deus me livre. Estão todos loucos. Não vou fazer nada.” Até que um dia, de tampo cheio, dei um chilique: berrei, empurrei, me descabelei, botei todo mundo pra fora. E eles nada roubaram. Bingo, pensei, aprendi a lidar com a situação.

Mal sabia que havia uma equipe de TV, tipo Jornal Nacional num momento câmera escondida, flagrando os furtos desta galerinha. E euzinha fui a grande heroína catalã. Apareci em rede nacional, horário nobre, expulsando os pequenos pivetes da região turística de Barcelona.

Fui tão cumprimentada no dia seguinte, pelos comerciantes da rua – já cansados de serem furtados -, que me senti até importante.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sem-teto. E daí?

Abrigo na França, pra quem morou em quarto de pensão em Barcelona, é papa fina. Com o incêndio, o edifício foi interditado e fomos levados ao tal abrigo-asilo (na foto). O quarto tinha duas camas de solteiro, mesa, frigobar, placa de fogão (daquelas elétricas), mesa, cadeira, banheiro privativo e – luxo dos luxos – uma varanda com vista pras montanhas nevadas nos Pirineus. Isso sem contar com a sensacional calefação em meio a um inverno rigorosíssimo!

Como o casal Justo-Arruda já estava acostumado a readaptações, rapidinho estávamos com nossos apetrechos básicos de sobrevivência: funil e papel higiênico pra coar o café, saca-rolhas e laptop. Surpresa mesmo foi descobrir que a Prefeitura de Canet estava zelando por nós, pelas nossas refeições e, para a felicidade geral da nação, do nosso vinho também!

No abrigo, descobri algo que levarei pra vida: vinho e queijo são um direito de todos. Cada sem-teto recebia, por refeição, uma garrafinha de 350 ml e, ao final, depois de entrada e prato principal, um bom quadradinho de camembert (ou brie, emmenthal, gruyère ...).

Como éramos obrigados a nos sentar na mesa dos desabrigados, ficamos meio famosos. Além de sermos os únicos jovens, entre as senhorinhas de 80 anos, muitos deles nunca tinham visto um brasileiro ao vivo! Resultado: mimos pra todo lado. Cada prato que chegava à mesa era muito bem explicado. Até o dia que apareceu um tal de rognon. Não consegui entender de jeito algum. Só não comi porque tinha cheiro de xixi. No dicionário, depois do almoço, tive a comprovação – era rim. Nojo!

Foram 15 dias, até que a proprietária me arrumou novo pouso. As refeições do abrigo eram tão aguardadas, que acabei sendo obrigada pelo Alexandre a mentir. Era o dia da grande festa no abrigo e seria servido faisão, como prato principal, e, na sobremesa, crepes regadas a Grand Marnier. Perderia então o grande dia? Tá doido! Fiz de boba, disse que tinha provas em Perpignan e só poderia me mudar no dia seguinte. Foi, sem dúvida, um lauto jantar!

terça-feira, 2 de março de 2010

Tempestade no sul da França? Sei como é isso


Li neste fim de semana que uma tempestade horrível atingiu a França. Sei bem como é isso. Dia 24 de janeiro do ano passado, estava morando em Canet en Roussillon, nos Pirineus, fazendo Sociologia na faculdade de Perpignan. E, como não podia esquecer da labuta, peguei um frila da Abril sobre os pontos turísticos do país. Teria que destrinchar toda a Côte Vermeille, bem ali onde eu estava.

Aproveitando o fim de semana, eu e Alexandre (M’Arrudão para os íntimos) partimos para Port Vendres – onde prometiam os guias locais havia uma megafeira de artesanato, frutas, embutidos, vinhos sensacionais. Ou seja, belas fotos e muitas histórias. De ônibus, chegamos fácil, fácil. Três horas depois, trabalho cumprido, tentamos partir para o próximo porto, Banyuls Sur Mer, logo ao lado.

No ponto do ônibus, que faz toda a Côte Vermeille, ouvimos os primeiros sinais de que a situação não estava nada bem. A motorista que passou se negou a nos levar a qualquer lugar. Era catástrofe das brabas. Aos berros nos disse que não havia mais ônibus e que deveríamos ir para casa. Casa? A 40 km dali?

Preocupados, fomos para a estação de trem. Não havia viv’alma. E nem perspectiva. A tempestade já estava por ali e a eletricidade havia sido cortada. Sem saber o que fazer, voltamos para o Centro. A ventania começou a apertar. Depois, lemos nos jornais que a velocidade do vento chegou a 180 km/h. Nem os restaurantes permaneciam abertos. O que fazer?

Opa, perrengue é com a gente. Já acostumados a caminhar, fomos em direção a Collioure – uma Búzios local – procurar abrigo. No caminho, a tempête já nos arrastava (literalmente), pessoas procuravam abrigos até no cemitério e mal conseguíamos caminhar na estrada.

Em meio ao vendaval encontramos um supermercado (Lidl) com as portas semiabertas, sem luz e pedimos ajuda. As funcionárias chamaram o carro da polícia e pediram que nos levassem até o próximo hotel. Eles se negaram. Aí veio a situação dramática: o vento era tão forte que eu quase voei (ok, ok, estava com menos uns quilinhos). Os guardas, preocupados, meteram a gente dentro do carro e nos levaram pra Collioure. Lá, arrumamos um hotel pra dormir. Tudo fechado – nem vinhozinho na mochila e muito menos queijo. Collioure é mais resguardada do vento e, mesmo sem luz, as pessoas estavam nas ruas, meio “curtindo” aquela situação, vendo a “ressaca”. Quando a luz voltou à cidade, corremos pro mercado e fizemos uma compra quase bíblica: vinho e pão.

A tragédia estava só começando. A proprietária do estúdio onde morávamos telefonou e jogou a maior bomba do dia: “Com a ventania, o prédio pegou fogo, estou preocupada com vocês, onde se meteram? Acho, no entanto, que o nosso apartamento nada sofreu”. Ficamos eu e M’Arrudão, a quase 40 quilômetros de casa, sem saber se tudo o que tínhamos na vida estava queimado. No dia seguinte, 25 de janeiro, era aniversário dele. Voltaríamos de trem – antes de toda a confusão, havíamos pensado em fazer uma feijuca daquelas pra data.

Quem disse que o trem voltou? A nossa preocupação a mil, não nos permitia ficar naquela cidade linda, apenas contemplando. Decidimos pegar a estrada: a pé. Foram 35 quilômetros. Quase um dia todo de caminhada. A família ligou, deu os parabéns e mal podia entender o que estava nos acontecendo.

Ao chegar em Canet, fomos encaminhados pela polícia local ao nosso estúdio (todo negro de fuligem), onde apenas pudemos fazer uma pequena mochila e sair escoltados. O prédio foi interditado. E nosso destino foi um abrigo da prefeitura de Canet, onde moram idosos e hospendam-se policiais. Pas mal. Mas isso é uma outra história...

A PERGUNTA MAIS ODIADA DO MUNDO

Ceratocone bem parece nome de planta da Amazônia. Não é. Trata-se de uma deformação que floresce na córnea, aquela membrana transparente dos olhos. A consequência é uma visão meio turva do mundo, como um quadro impressionista. A solução, num primeiro momento, é simples: basta colocar lentes rígidas que, ao contato com a lágrima, faz com que os portadores vejam até o que não querem.

Diagnóstico feito, lentes encomendadas, podemos partir pra vida. A história nem sempre é linear. Há pequenas manchas – que aparecem como gotículas nas plantas em dias de chuva. Há também a intolerância à claridade e o desgaste das córneas pelo uso contínuo do aparato. E olha que, hoje em dia, já há lentes duras com bordas de silicone, bem ao estilo da pizza com bordas de catupiry.

Eis então que surge a tão famigerada pergunta: “Ué, não está vendo nada, por que você não coloca os óculos?” Ahrrrrrrrrrrrrrg. Então, se a solução para o mal é usar lentes, por que diabos os portadores poderiam estar de óculos, que não fazem o tão bem-vindo contato entre a córnea em cone e as lágrimas? A resposta sai sem a menor pretensão de convencer o indagador, neste momento travestido de torturador: “Não adianta.”

Daí, você acredita que esta pergunta não mais será feita e – ufa! – nunca mais será preciso voltar para a repetida resposta, sempre acompanhada da cara de que ‘nunca vou convencer’. Os torturadores, porém, estão por toda parte e repetem a indagação mais vezes do que pipocam manchetes de corrupção em Brasília.

Pode até parecer mania de perseguição. E, tenho que confessar, é. Por não ser tão comum, muita gente desconhece esta singela deformação que transforma alguns pares de olhos por aí em cones, daqueles vendidos em temakerias, não em floriculturas.