quarta-feira, 31 de março de 2010

É nosso e ninguém tasca!

Há uma disputa em curso que promete dar fim a um dos endereços mais tradicionais de Laranjeiras: o número 24 da Rua Alice, onde há 66 anos está o Bar do Serafim.

Tradicional boteco do bairro, de onde saem por dia uma centena de litros de chope e de petiscos meio portugueses meio nordestinos, vive hoje de incertezas. Para muitos, o bar tinha apenas um dono: o bigodudo e querido Seu Juca, morto ano passado. A história é, no entanto, muito mais complicada. O negócio é dividido entre quatro proprietários, quatro famílias na verdade, e há um espólio que impede a assinatura definitiva da venda do negócio.

Para tristeza dos vizinhos beberrões, interessados no ponto não faltam. Segundo a atual gerente, mulher de um dos proprietários, que está à frente do restaurante, o documento de venda já está assinado, para infelicidade geral de quem fez dali o quintal de casa e teme que o lugar se transforme em mais um desses botecos “de grife”, que tomaram conta da cidade. Fiando-se na morosidade da justiça brasileira, os assíduos frequentadores torcem para que essa pendenga não chegue jamais ao fim.

Apesar de já ter destino certo, os mais fiéis formam – entre um chope e um torresmo – novas sociedades. O assunto predileto de quem se acostumou a sentar entre as mesas de madeira com tampo de mármore é como levar adiante – e fazer rentável – o empreendimento.

Sábado desses, de tardinha, a turma do balcão “fechou negócio” com direito a aperto de mãos e troca de telefones. “Cada um entra com R$ 15 mil e a promessa de manter a equipe e o cardápio”, propôs uma das novas sócias. Comprometidos com a próxima “reunião de diretoria”, todos tentam carregar a certeza: o Serafim é nosso e ninguém tasca.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Casa de pensão: uma trajetória de paciência

Quando em janeiro de 2005 decidi morar em Barcelona com o Alexandre, ele dividia um apartamento com figuras meio curiosas. Na verdade, ele sublocava um quartinho do russo que era o inquilino titular. No contrato tácito, ele poderia levar a namorada para uns dias, não pra morar. Ele já estava há três meses lá quando eu cheguei de mala e cuia. Decidimos dizer que eu estava apenas de férias (apesar da bagagem enorme, que ficou embaixo da cama) e que voltaria para Paris. Nesse meio tempo, a gente correu atrás de um apê só pra gente.

Essa busca foi em vão, caímos em golpes, perdemos dinheiro e não alugamos nada. Já vivendo uma situação bem delicada em meio aos russos, resolvemos procurar quartos para casal. Foi aí que encontramos a pensão da Luz Marina, no bairro Gótico, através de um anúncio de jornal. A amazonense marcou um encontro em meio às Ramblas e ficou nos observando de longe. Ao achar que se tratava de um casal confiável, veio ao nosso encontro e nos mostrou o que seria nossa primeira casa nesses seis anos de convivência.

Era um apartamento gigante, num belo prédio antigo, próximo à Praça Real, todo retalhado em quartos pra alugar. O nosso era o maior com geladeira própria, mesa, TV, cama, um armário grandão. Tudo bem feio, estilo Casas Bahia, mas havia uma varanda com vista pra uma pracinha e uma faculdade. Já cansados de não ter onde viver, topamos, pagamos e nos mudamos em três dias.

A vida na pensão foi uma lição. Havia apenas dois banheiros pra umas 15 pessoas, uma cozinha com fogão de quatro bocas e uma máquina de lavar. Pra usar utensílios tão fundamentais, a gente encarava fila com pessoas de nacionalidades variadas. Tinha brasileiros, argentinos, espanhóis, venezuelanos, etc.

Assar um frango era uma batalha. Tínhamos que deixar ali o almoço por horas até que alguém sinalizava a nossa vez. Havia também a convivência bacana de ver as diferentes comidas que saíam daquela cozinha. Aprendemos a fazer uma verdadeira tortilla espanhola e os hábitos dos hermanos.

No banheiro, a convivência era menos pacífica. É nojento dividir uma privada com tantas pessoas, eu vivia com álcool na mão, pra fazer a higiene da louça antes de usar. Adquiri também o hábito – que jamais perdi – de só tomar banho de havaianas.

A Luz tinha uma filhinha adotiva, de uns três anos, vinda da Amazônia, que era minha paixão. Sempre que ela aparecia, a gente brincava, eu mostrava meus brinquedinhos, minha ovelha de pernas longas e fazia teatrinhos, que ela amava. Ali, a gente também exerceu a paciência e nos tornamos ‘os melhores inquilinos’, já que limpávamos tudo, não causávamos transtornos e tal.

Houve até casos de polícia com um casal meio barra pesada, que cismou de brigar aos berros com ameaças graves com facas em punho. Outro casal, esse espanhol, levava comida pro quarto e não lavava a louça. Quando a Luz foi obrigada a invadir o espaço deles por conta de péssimos odores, o que se via era o inferno em forma de sujeira. Um horror!

Saímos de lá quando voltamos para o Brasil, em novembro de 2005. De volta à Copacabana, minha mãe nos presenteou com uma temporada num pequeno loft só pra gente, na rua Anita Garibaldi, até que a vida por aqui voltasse aos trilhos. Depois de quase dois anos longe, voltei a exercer o meu direito à privada própria, deixando de lado a embalagem de álcool líquido que havia se tornado minha amiga inseparável.

quinta-feira, 25 de março de 2010

No século XXI, com a cabeça das nossas avós


A primeira matéria que me pediram pra fazer na finada revista Ponto TV, que sobreviveu poucos meses no JB, foi o lado B do Alemão, vencedor do Big Brother Brasil, em abril de 2007. Ovacionado pelo público, ele levou o prêmio de R$ 1 milhão com 91% dos votos contra sua concorrente. Os editores queriam, no entanto, que eu provasse por A + B que a emissora tinha manipulado o público para a construção de um herói.


Pesava nesta certeza dos editores, fatores como: o triângulo amoroso protagonizado pelo cara, suas atitudes meio grosseiras, a afirmação de que não mantinha compromisso sério com mulheres por mais de três anos e ter sido escolhido pra participar do programa por um olheiro dentro de uma boate de bacanas em São Paulo. Resumindo: tinha tudo pra cair na desgraça das moças que, acredito, são as que mais votam.

O resultado – quem acompanhou, sabe – é que, de fato, ele virou herói e há tempos multiplicou seu milhão. Hoje é estrela de programa de um dos canais a cabo da emissora.

Recentemente, Dado Dolabella ganhou a primeira edição da Fazenda, em outra emissora. Não acompanhei o programa, mas sempre soube que a situação deste ator, estampada em várias revistas do ramo, mostra que suas atitudes nunca foram lá muito corretas. Entre as mais chocantes, o sujeito bateu em mulher. Putz, como é que alguém poderia acreditar que a mulherada iria dar uma grana pra ele e não pra outra candidata?

Tá, são só dois exemplos e, certamente, há mais casos no estilo. Lembrei disso tudo hoje, quando li numa coluna de TV do Globo, que o Dourado está na terceira posição do ranking do site celeb.com.br, da revista Reader’s Digest, atrás apenas do Lula e da Dilma. Como assim? Acho que a piada masculina tem mesmo razão: não dá mesmo para entender mulher.

Nós, hoje em dia, muito mais independentes, não buscamos os fofos, gentis, trabalhadores, simpáticos, que não berrem com a gente? Hmmm, acho que estou sozinha. As mulheres continuam querendo os fortões, machistas e mandões, pra colocá-las nos eixos! Caramba, isso me soa tão démodé. E a emissora tentando dar de moderninha, escalando elenco com homossexuais assumidos pra mostrar a nova realidade mundial.

Como o grande veículo de massa, reflexo de quase tudo o que pensa nossa sociedade, a TV mais uma vez mostra que o mundo continua uma caretice só. Mesmo que, diante das amigas, as mulheres não confessem suas preferências, no anonimato do voto, elas vivem como nossas avós. Sei não, acho que a gente ainda tem que comer muito feijão com arroz pra suportar, entender e conviver com o mundo tal qual ele se apresenta hoje.



terça-feira, 23 de março de 2010

C'est bizarre! Qué raro! Ou, simplesmente, mundo estranho


Qual o real significado da palavra bizarro? O aurélio aponta, entre outras definições, esquisito. Como sempre tive uma postura, digamos, pró-ativa em matéria de bizarrice, acabo achando que o que chega a ser bizarro pra mim, pode ter uma classificação ainda mais pesada pra você. E vice-versa. Meu contato com o diferente (será que este pode ser um sinônimo?) é sempre bem-vindo. Adoro uma bizarrice! Exceto aquelas mostradas aos domingos em programas de auditório, que expõem em rede nacional deficiências físicas. De resto, topo as empreitadas.


E faço coleção de histórias que, para muitos, têm um sabor indigesto. Adoro pegar o S20 pra chegar à Barra e acho mais emocionante do que montanha-russa de parque americano, fui mordida no bumbum (sabe lá por qual bicho) enquanto desfrutava das delícias dos Lençóis Maranhenses, morei em quarto de pensão em Barcelona, andei 35 quilômetros por conta de tempestade e fui demitida sumariamente do posto de babá, por deixar a porta bater com a chave por dentro enquanto tentava apartar a briga escada abaixo entre duas crianças de 3 e 5 anos.


Fora os extremos, um dos momentos estranhos que já vivi foi conhecer a cidade de Mucugê, interior da Bahia, encravada na deslumbrante Chapada Diamantina. Até aí só boas indicações. Só até aí. A cidade se vangloria de ter e manter um cemitério construído no estilo bizantino como forma de atrair turistas. Na onda da principal atração local, na praça central há um carrinho em forma de caixão pra entregar delivery quem passa da conta nas bebidas alcoólicas (fiz a foto, que abre este post, mas estava beeem sóbria!).

Outra esquisitice foi percorrer os esgotos de Paris. Ok, ok, na França jornalista não paga entrada em museus públicos. Valendo-me do benefício, não paguei e entrei pra sentir um dos piores fedores da minha vida. Apesar do desconforto, a experiência vale a pena, por imaginar há quantos séculos aquilo foi planejado e construído.


Aliás, a França não é só glamour como vendem os folhetos de viagem. Em Ceret, cidadezinha turística no pé das montanhas nevadas dos Pirineus, a primeira parada dos visitantes é a Ponte do Diabo e na placa há uma pixação onde se lê ‘ponte dos suicidas’. Isso lá é atração? A construção é bem bonita, como mostra a foto acima, mas bem podia ter sido batizada – ou rebatizada – de outra forma.


Mantendo aquela tal atitude pró-ativa na busca por bizarrices, às vezes, mesmo desconfiada, sigo adiante nas minhas ideias. Ano passado, a cara dos amigos e da família quando disse que iria para a Ilha de Marajó passar uns dias de folga era de espanto. “Querem ver miséria?” De fato, a pobreza é visível por todos os cantos. A ilha, no entanto, tem muitos encantos, como ver búfalos como se fossem cavalos andando pelas ruelas (foto abaixo), belas praias de rio e hospitalidade de primeira, que nos leva a escutar aquelas histórias que só em cantões do Brasil a gente ouve e se delicia, entendendo melhor como vive o povo brasileiro.



Aliás, nestas incursões pelo país, já passei pela bizarrice de ser observadas por uma família de porquinhos enquanto fazia xixi numa parada de ônibus entre o Maranhão e o Piauí. Há algo mais estranho do que cruzar o interior destes dois estados em ônibus de linha, a famosa "Marinete"? Claro que tem – pra mim. De repente, não pra você.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Somos todos brasileiros, graças a Deus!



“Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo estão acima. Os caboclos vêm abaixo, o meu é o Tupinaná”. Esta frase é de um sujeito boa praça que frequenta o salão vazio do Bar do Serafim, na rua Alice, aos sábados. A hierarquia religiosa do rapaz em questão é bem curiosa, mistura a Santíssima Trindade com o candomblé. Vai entender. Mas, cá entre nós, há no Brasil alguém que reze por uma só cartilha?


Nossa confusão é tão grande que até o IBGE resolveu ir a fundo na pendenga e vai lançar a campanha, para a enquete que será feita esse ano, cujo mote diz “Neste Censo, declare seu amor ao seu Orixá/Diga que é do Santo, diga que é do Gunzu, diga que é do Axé/Pois quem é de Umbanda, quem é de Candomblé/Não pode ter vergonha, tem que dizer que é!”. Quem sabe desta forma, as pessoas fujam da resposta fácil ‘católico’, e revelem de fato qual é sua crença.

Eu mesma, que me autodenomino católica, volta e meia me pego em pensamentos espíritas e, na ingênua ansiedade, já me consultei com várias cartomantes. Realidade mais que nossa, minha madrinha no catolicismo há tempos é budista e – acho eu – nunca soube rezar uma Ave Maria. Dane-se: ela faz parte de um seleto grupo, daqueles que se dão sem medidas ao amor ao próximo, repetido nas missas que eu muito frequentei rezadas pelos padres do Santo Agostinho, na Santa Mônica.

A minha confusão vai além: tenho certeza que os mortos estão sempre ao meu lado. Volta e meia, bato um papo com a antiga proprietária do meu apartamento e sempre senti a presença da minha avó quando morei na casa dela, depois de sua morte. Em outro momento, ocupei o apartamento de uma tia que partiu pra uma melhor, e também tinha lá minha certeza de que ela estava ali. E nunca senti medo, se elas vêm é porque querem estar perto de mim. Se fosse realmente uma católica fervorosa, teria certeza de que elas estão no paraíso e jamais voltariam pra falar comigo. Será?

Diz a Rô que sua mãe viu certa vez um homem negro, boa pinta com a cara boa, com as mangas da camisa dobradas na alturas dos cotovelos, observando as duas fazendo arrumações no armário. Não é que tempos depois, ela fisgou o Aluisio, sujeito com essas descrições? Tá, a Rô é mineira, conta que a mãe fazia os filhos ajoelharem pra rezar com a “palha benta” queimando pra espantar os raios durante os temporais. Eita povo estranho, sô! E depois dizem que lugar de sincretismo é a Bahia. Vai passar uma tarde com a amiga mineira pra ver quem tem razão.

Carioca clássica, minha sogra é do candomblé. Mas não tem santo dia que ela não me conte que foi batizada, fez comunhão e crisma. Muito depois, ela raspou com o santo, lá no terreiro, mas volta e meia está rezando numa igreja do Centro da cidade e não perde uma festa do dia de São Jorge. Além disso, acredita nos búzios e nas cartas. E, então, a sogra é católica ou macumbeira? Acho que a resposta certa é “ela é brasileira”.

Outro grande exemplo vem de um amigo que está longe, no Planalto. Arthur segue à risca a música de Raulzito: “já fui Pantera, já fui hippie, beatnik, tinha o símbolo da paz, pendurado no pescoço porque nego me dizia que era o caminho da salvação”. Hoje frequenta um terreiro lá pelas bandas de Brasília. Amanhã, sabe lá. Há até pouquíssimo tempo era Vicentino de não perder missa aos domingos.

Para resumir, só mesmo a frase brincalhona de outro amigo, o Caio, que, com um risinho irônico, se define: “Sou comunista, graças a Deus!”.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Inteligência pra dar e vender


Há uma frase dita pela minha irmã, Danielle, uma bacharel em direito, que tem martelado na minha cabeça nos últimos tempos. “Há outros tipos de inteligência, além dessas que vocês jornalistas consideram”. Velha rixa, jornalista versus advogados? Alexandre, roxo de raiva, me diria que sim. Apesar das diferenças na formação acadêmica, acho que a Dani tem lá sua razão.


Como repórter, atuei nas áreas de cidade, cultura, TV, informática (sic!), turismo, e lá atrás tive um pouco de contato com a complicada economia. Como lição dos editores, aprendi que meu dever era escrever sem complicações pro leitor. Se a gente levar em conta que muitas dessas funções desempenhei em jornais populares, o ‘descomplicar’ é ainda mais profundo.

Daí, me peguei em 2010 cheia de planos de mudança. Não pela primeira vez, pois entre 2008 e 2009 fiz a conclusão do curso superior de sociologia. E a verdade para os profissionais desta área é muito distante da jornalística. Lá, apaixonada pela volta aos estudos, mergulhei de cabeça. Morria de rir porque nos trabalhos acadêmicos você tem que problematizar as situações. Cuma? A ordem nas redações – a minha verdade - é “traga-me soluções, e não problemas”, o famoso "se vira". Como estava longe da faculdade há uns 10 anos, pensei: este é um outro tipo de inteligência. Ponto pra Dani!

Passado um tempo, um trabalho aqui, outro ali, me peguei querendo aprender leis para desempenhar uma função bacana no recém-criado Instituto Brasileiro de Museus, que abriu dezenas de vagas pelo país. Pra entrar, através de concurso, tem que saber direito administrativo. A minha apostila diz que é direito dos funcionários públicos faltar ao trabalho por dois dias para se alistar como eleitor. Este é, sem dúvida, um outro tipo de inteligência que eu ainda não alcancei. Então para entrar no serviço público não é preciso ter 18 anos, um título de eleitor e estar em dia com as obrigações com a Justiça eleitoral?

Além das apostilas de direito, por que nem tudo são flores no meu mundo, me encontro emburacada num frila onde o assunto é o mundo corporativo (e que, por sinal, não me dá tempo de estudar para o tal concurso bacana). Sabe qual é uma das minhas maiores dificuldade? Nas entrevistas, os caras mesclam palavras em inglês como se fossem sinônimo de português, no estilo "os papéis foram negociados no spot chinês em vez do bench mark padrão, durante o rump up de 2009". TODAS as palavras e expressões têm tradução para a tão cara língua de Camões. Por que diabos então os caras falam em inglês? E pior: misturando as duas línguas, lembrando aquelas cenas patéticas da novela A Indomada, na qual os personagens metiam o inglês no português, sem perder o sotaque nordestino.

Cheia de razão, a Dani certamente me diria: “Viu, há muito mais coisas a entender no mundo do que pensam vocês, pobres jornalistas!” E o pior disso tudo é que, cada vez mais, dou o braço a torcer.



terça-feira, 16 de março de 2010

Pequeno manual de sobrevivência


A pedido do amigo Guilherme Freitas, vou contar nossas peripécias com o bidon, nos meses em que moramos na pequena e pacata Canet en Roussillon, sul da França. Bem, bidon nada mais é do que um galão, desses que o pessoal tem no carro pro caso de faltar gasolina. Lá, a função é outra e muito melhor. Para estar inserido na pequena sociedade canetoise, é preciso, de cara, adquirir o seu. Em seguida, o sujeito leva o seu galão à cave mais próxima e arremata por algo entre 1,50 e 2 euros/litro vinho direto do produtor.


Os olhos do Alexandre com a descoberta da venda de vinho au details (a bebida fica estocada em enormes reservatórios e é retirada por uma bica) brilharam como nunca. O cara pirou, por que não faltavam opções de caves, mercados e até produtores de vinhos da região – local de solo pedregoso, que produz não só tintos e rosés, como também um tipo de branco (Muscat) mais adocicado e servido como aperitivo.

Quando a Lia e o Guilherme – introduzidos ao nosso mundinho pelas amigas Vivian Rangel e Mariana Filgas - cismaram em morar em Canet (e não em Perpignan, como sugeri por email), cumprimos nosso papel. Demos dicas de onde morar, horário do ônibus, preços, tudo como manda o figurino. E, claro, não deixamos de lado a dica mais importante. “Meninos, comprem seu bidon!” Orgulhoso, Alexandre mostrou o nosso de dois litros e explicou como era feita a venda de vinhos por aquelas paradas. Na mesma semana, já era comum esbarrar com um dos dois pelas caves.



No princípio, eles usavam garrafas d’água – como também fazem alguns franceses. Guilherme só foi adquirir o seu em um dos passeios ao Chateau l’Esparrou, um belo castelinho produtor que fica à beira da estrada de Canet. E ainda humilhou o meu Alexandre: pegou logo um de três litros.

O resumo desta história, pra mim, é que amizade de bidon não é de brincadeira. Depois de instalados num belo apartamento na Vieira Souto de Canet, a dupla não cansava de nos fazer convites para bate-papos regados a vinho. De bidon, claro. Só víamos os engarrafados quando a Lia tinha convidados muito ilustres. No começo, ainda me sentia acanhada quando o Guilherme começava a bocejar, mas a cena passou a ser corriqueira e a resposta da amiga também: ‘deixa ele, a gente continua’. Intimidade conquistada, o casal Justo-Arruda cansou de matar o meu, o deles, os nossos bidons em conversas longas madrugada adentro.